O EU. A ELA. US NÓS: caminhando pelo labirinto das relações.
Já para ela e outras mulheres a pergunta tinha a clareza de quem estava no escuro, no labirinto, num áporo e que o outro estava lá com ela, junto, abraçado de conchinha. E, assim, ou justamente por isso, ela se referia ao lugar como um óbvio, um dado, que qualquer cego responderia. Para ela a pergunta era clara, distinta, obvia, notória. Ledo engano. Todo outro é singular e todo dentro é um labirinto que precisa de GPS. É um espaço que alguns navegam com grande desenvoltura, mas a maioria fica perdido.
A reveria disso e de forma inusitada, 99% das mulheres, sem nunca tê-la visto, sem saber nada da história, ou da historicidade dela, a conseguem localizar e ofertar ajuda. Conseguem acolhe-la, como se as duas estivessem de mãos dadas no mesmo espaço. Conseguem compreender a pergunta como Teseu e seu novelo num labirinto.

Leitoras mais apressadas podem pular para Esse Tal de Nós.
Minha ídola me perguntava a cada encontro, quando namorávamos, se eu estava feliz. Ela não me perguntava se eu era feliz e sim se estava, o que tornava a pergunta metafisica, transcendental, tipo: qual o sexo dos anjos? Ou, eles se reproduzem por via sexual?
Essa foi feita numa Primavera. Nunca me esqueço dessa estação. Ela sempre floresce em mim, me rejuvenesce, me alegra, me eterniza. Foi uma noite, numa praça. Com ela sentado entre as minhas pernas, olhando para as luzes da cidade que teimavam em não dormir. Ou caminhávamos dando voltas na praça enquanto voltávamos ao mesmo ponto, ela me perguntou: “quando você vai me tirar desse lugar?” Rigorosamente, a mesma pergunta que minha partilhante fez ao seu namorado.
Ela saía de um casamento, ainda não tinha se dado a separação judicialmente, não queria que ela recebesse o mesmo olhar de condenação e maldição que eu lancei para ‘minha’ ex-esposa. Então o lugar que eu a coloquei foi o de proteção, cuidado, resguardo, mas quem falou que mulheres querem príncipes encantados? Da onde tiramos que mulheres reais não podem se proteger sozinhas? Que elas necessitam de um terceiro, de um outro para lhes proteger?
Fui ao labirinto buscar a mim mesma. Buscar a mim mesma pelas pernas e mente de outro. Lá vi minha parte bicho, lá vi minha parte homem. Diante das duas ferocidades, descobri minha parte mulher, feminina. E essa parte minha desejou o touro que havia naquele homem e quis o homem que existia naquele touro. Mas, antes que ele me possuísse para eu ser completa, o herói o transpassou com sua espada. Mas, o herói nunca soube que a sua força vinha da mesma bestialidade. O herói ao esconder de mim sua fúria teve que me abandonar. Eu amei o herói, eu amo o herói. Mas, ele roubou o meu destino, o de ser presa pela minha própria vontade e querer. Ele roubou o meu sagrado. Apossou de uma glória que era minha. Ao me salvar, ele me deixou perdida para sempre, a não ser que ele se transforme na besta humana. A não ser que ele seja capaz de me mostrar toda a sua ferocidade e temendo meu olhar de pavor, reconhecesse a excitação do meu amor. E temendo que eu o devorasse, me fizesse sua. Eu então seria dele, completamente dele, não importaria com quantos homens eu me deitasse, com quantas batalhas eu lutasse; ele seria meu herói. Mas, ele não deu conta, me deixou para Dionísio e tudo o que escrevo aprendi no lençol do deus do vinho. O único que compreendeu que meu novelo era a saída e a descoberta dos nossos mundos. O único que aceitou ser o mais humano dos deuses, enquanto Teseu recusou ser o mais bestial dos homens.
Isso tudo eu li no diário de Ariadne, tinha muito mais coisas, mas ninguém mais tem paciência de ler e saber dessas coisas que as moças já nascem sabendo e só ogros bobos ficam contando como se fossem novidade.
Ia dizendo que mulheres precisam de proteção, mas na medida correta em que nossa proteção não lhes rouba a história, o protagonismo de elas serem quem são. Da mesma forma que nós homens somos.
Essa amada-amiga, mulher, companheira, me perguntava sobre o nós. Ela ficou anos tentando me ensinar que existe o eu, existe o outro e existe o nós, que precisamos cuidar do nós.
A educação masculina é erigida na construção de uma centralidade. Ao se nascer com pênis, automaticamente vai se aprendendo que o universo gira entorno dos nossos desejos, das nossas vontades, do nosso querer. Toda educação dita ou não dita, ensinada diretamente, ou aprendida por exemplos é voltada para o eu, centrada no eu, voltada para o si mesmo. Lidam melhor com o mundo adulto aqueles que potencializam e expandem esse eu.
Esse eu é o ego mesmo. Epidérmico, superficial. Não é o eu de uma identidade yogue. É o eu construído para dar conta do mundo material, com valores de conquistas, superação. Um eu que se constrói como fora, cujas identificações se dão fora. Identificamos com o nosso trabalho, com o nosso time, com nossa casa, com nossas conquistas. É um eu projetado e lançado no mundo. Quanto maior melhor. O nosso eu é um pênis e a necessidade de fecundação, reprodução. Um eu/ego no qual tudo e todos giram envolta. Tudo existe para ele e por ele. Pensamos e desenhamos a existência a partir desse lugar: fecundadores do mundo.
As mulheres em sua maioria não têm esse ‘eu’. Toda educação feminina é edificada na castração desse querer, no silenciamento e esvaziamento desse eu. É uma educação construída voltada para o outro. Elas se centram no outro. São educadas não para si mesmas e sim para agradar, receber, compreender, acolher o outro. Muitas passam a vida inteira sabendo das preferências e gostos de todos, menos o delas, porque o delas é o de proporcionar o prazer do outro. Claro que há um prazer e uma realização nisso, porém tem algo nesse lugar que anula a possibilidade de valorização, de re-conhecimento tanto de si mesma, quanto de outros. Creio que a frase de Sarte o “inferno é o outro” nasça da observação que o filósofo francês fez de sua amada Simone de Beauvoir. No masculino egocêntrico, egoico, típico e padrão de 90% de todo homem, não há esse lugar. Esse inferno é o lugar do feminino. Só nele encontra-se essa ocupação em agradar, em saber se está agradando, e agradando se está mesmo tudo certo, na medida correta. Se a mãe dele está gostando? O que estão achando da roupa dela? E da toalha na mesa e do papel no banheiro? Enfim… o inferno.
Não obstante, uma mulher que busca essa centralidade tida como masculina, perde o lugar na sociedade, ela fica deslocada entre as mulheres e entre os homens. Ela não é compreendida, aceita. Como se o botão do foda-se não pudesse ser apertado por elas. Como se trazer à tona essa centralidade, esse eu no qual outros giram em volta mudasse o lugar, corrompesse, desvirtuasse toda sociedade. Independente disso, muitas tem realizado a dura e árdua tarefa de uma jornada dupla, tripla e mesmo assim não é suficiente. Continuam se cobrando e sendo cobradas, continuam sentindo-se frustradas, massacradas. Não importa se é bonita ou feia, gorda ou magra, casada ou solteira, mãe, ou sem filhos, jovem ou velha, rica ou pobre. Não importa se são bem sucedidas, há um peso sobre elas que dificulta elas permitirem-se permitir.
As mulheres em geral têm um eu subjetivo, introspectivo. Captam e sentem o ambiente envolta, mas não projetam pra fora. Esse é um espaço um lugar social que é castrado, limitado. O acesso é difícil, nosso machismo não lhes cede espaço, não lhes dá trégua. É um massacre, especialmente, porque além disso, lhes imputamos a responsabilidade do nosso.
Aqui penetramos o abismo das relações. Mulheres que procuram um nós. Homens que procuram um ela.
Inúmeras vezes, nas relações, as moças, automaticamente, estão projetadas no nós. Elas saltam para o nós sem passar, mapear o elas, mesmo porque, o elas é o outro. Para a maioria das mulheres, a construção do nós é a coisa mais simples e fácil. De modo geral, elas observam com muita acuidade esse nós, elas cuidam com muito desvelo do relacionamento. O complicador disso é que falta o ela. Poucas mulheres têm esse ela constituído de uma forma que é re-conhecida e colocada numa posição de igualdade.
Por outro lado, homens não alcançam a dimensão do nosso. Ficam travados no eu. Cobrando e massacrando o eu/ela delas. Não é um massacre direto, ele é cultural, familiar, relacional. Os deveres, as obrigações da casa, da família, da relação são delas. E isso não precisa ser dito. São elas que devem ceder, que devem adaptar, que devem se submeter para que o outro seja e a relação perdure, permaneça. Há um fastio, um cansaço nisso. Nossas avos ficaram nessas relações por décadas, até que a morte os separassem. Nossas mães buscaram um equilíbrio nessa balança, separaram quando o prato ficou muito desigual. Minha geração e as da minha filha não dão mais do que três avisos sobre esse desiquilíbrio. Elas não estão com receio de partir, sair e buscar uma nova relação, ainda que nos amem. Inúmeras relações tem terminado não por falta de amor, mas de equilíbrio. No entanto, essa ação não as apazígua, elas continuam carregando um peso, uma culpa, uma inadequação.
Outra questão igualmente inglória é que as mulheres que tem a si mesmas, que tem ela, assustam e amedrontam a nós homens. Em grande parte, não estamos preparados para essa relação de igualdade. Para a relação na qual seja necessário lidar com um querer que não é o próprio. Não estamos preparados para uma dimensão compartilhada, pensada conjuntamente. Sabemos lidar com o eu, com o ela, mas há dificuldade de se pensar o nosso. E isso é maravilhoso e tento dar um exemplo.
O pensamento feminino é inclusivo. Busca-se o melhor encaixe e o bem estar de todos, para todos. O pensamento masculino é exclusivista, estando bom para mim, está ótimo. Não há cuidado. Há contrato, que tenta uma justa medida entre dois quereres selvagens. No feminino há um acolhimento. Quando um partilhante não pode vir, ele me manda um zap dizendo: “hoje não vai rolar. Depois a gente conversa!” Esse depois as vezes nunca chega e está tudo certo. As vezes surge um imprevisto e para os caras eu digo: “vou atrasar! Ou, essa semana precisarei desmarcar!”Isso é natural. Está tudo certo.
Com elas isso é impossível. O ato não pode ser unilateral. Tem que ser discutido, debatido, encontrado o melhor para ambos. É praticamente uma partilha discutindo como podemos encontrar outro dia, outro horário. É lindo! Muito diferente da marcação do eu. Eu não posso, você se resolve aí. Com elas há uma ocupação, uma busca, as vezes um sofrimento para fazer dar certo. E isso é em todas as relações. Elas criam uma cumplicidade maravilhosa e agem assim até que larguem, deixem, se decepcionem. Aí acabou a relação.
É importante que a gente comece a desvelar a linguagem do outro, sentindo o mesmo desejo que degustamos a língua, o toque, as caricias. Compreender o universo emocional é tão cativante e exploratório quanto a descoberta do corpo físico. Exige atenção, trato, amor, comodidade. Exige fantasia, partilha, carinho. Exige tradução.
Assim, é incrível como que uma mulher compreende essa pergunta como se elas tivessem um GPS. Como se elas estivessem no mesmo local, vendo a mesma paisagem. Nós porém estamos na outra casca da laranja, do outro lado do universo. É preciso construir uma ponte para atravessarmos e é fundamental que na construção dessa ponte elas não se decepcionem conosco.
Tenho visto na maioria das mulheres uma capacidade sensacional de suportar os desejos dos parceiros, mas muitos de nós não damos conta de lidar com isso. Ainda acreditamos que Ariadne precisa ser salva, assim a preservamos do nosso lado bicho. E desencontrados, desconexos, o labirinto nos devora. O Minotauro toma conta de nós. As relações terminam porque o medo, o receio, não rompeu a única virgindade que não pode faltar: a da confiança. E é nela que o laço se efetiva. É sobre ela que mulheres encontram o seu lugar. E ficam nele com alegria, amor, gratidão.
E talvez seja essa e não outra a saga de Teseu, matar o Minotauro foi fácil, ser o homem que confia seu desejo àquela que ele idolatra como casta é de fato integrar o Minotauro que existe nele. É conduzir o relacionamento para um nível no qual poucos de nós fomos. É a escrita de novos mitos, novos heróis e novas sagas.