TRÊS DIMENSÕES DE SILÊNCIO

Às quatro da manhã Somater me ‘acorda’ e me passa o roteiro da reunião, iriamos trabalhar com três níveis de silêncio. Um primeiro relativo ao Grande mistério, a grande noite. Um segundo relativo à Grande Mãe e ao útero. Um terceiro interno- nosso. Gostei das ideias, das relações, fui preencher o dia com minhas falas existenciais e às 18:00/18:30 iniciamos a nossa reunião. Estiveram presentes duas lindas mulheres e cinco homens.
O tempo de uma vergonha de estar em uma reunião, com amigos esperando assertivas e eu ‘entrenhado’ nos meus próprios dilemas. Centenas de pessoas a espera de ajuda e eu sem conseguir silenciar-me. Cada vez que essa reflexão vinha à tona mais agitado eu ficava, querendo forçar o silêncio. Igual quem grita, igual quem estapeia pedindo paz e tranquilidade. Não tinha saída, eu precisava aceitar minha inquietação e foi com essa aceitação que algo perto de um silêncio começou a ser gerado.
No entanto, foi quando abriram a porta que saímos todos desse dentro de nós. Um dentro barulhento, as vezes selvagem, ruidoso, mas, nós. Um nós que não deveríamos nos envergonhar e tão pouco correr, e sim, abraçar. Foi ao falar desse momento de silêncio que percebemos que nunca falamos tanto. É somente na falta que a presença se manifesta, tomamos consciência. Há pessoas que quase não comem carne, quase não transam, praticamente, não bebem; basta dizer a elas que estão por três dias de preceito que elas salivam por carne, se excitam vendo cotovelos, sentem vontade imensa de tomar cerveja. A atenção na falta desperta estados internos adormecidos, o silenciar-se não é diferente.
Apagamos as luzes! Todas. Pedimos para imaginar a floresta, a mata, a natureza, a clareira e o céu aberto, o avistar as estrelas. Era nesse lugar que homens e mulheres introspectavam o silêncio. O engolia em forma de medo parindo respeito e compreensão, abraço e sentimento de totalidade e pertencimento. Imerso na noite escura, ouvindo passos, sons da natureza falante, da sinfonia da natureza é que desenvolvemos as potencialidades dos xamas e dos guerreiros. É ali imerso pela natureza que as árvores, flores, matas, folhas, chão, terra, estrelas, animais, insetos comunicam, que se aprende a linguagem de todas as coisas, que se aprende a dialogar consigo mesmo sem temer as dores, dissabores que nos atormentam. É ouvindo aquele silêncio que a gente aprende a falar com o outro, com o mundo.
Minimizando as batidas até que as silenciasse, as parassem e deixando cada um viajando por si mesmos, dentro de si mesmos, conectando-se a uma forma de silêncio que nasce do medo, da solidão, do vazio, da angústia, do desamparo. Um silêncio que vai ganhando voz, sentido, conexão até que se explode e reconhece a diversidade de vozes que compõem o universo, as florestas, as matas, nós mesmos.
Aos poucos foram voltando e fomos conversando sobre as lembranças, as percepções de cada um. Uns falando que só recordava de um vento, do escuro bem espesso o recobrindo e de uma nevoa. Outra relatava que via uma grande luz no centro da sala. Uma luz tão forte que a ofuscava mesmo com os olhos fechados. Outra dizia que não tinha visto escuridão, que em nenhum momento tinha sentido a escuridão. Outros relatando as sensações corporais de frio, calor. Tentava eu, como éramos poucos, descortinar coisas que foram feitas, níveis que tínhamos chegado, mas era a fala de cada um deles, que me abria para as percepções internas. Por exemplo, eu sempre acreditei que o ritual da fumaça tivesse o sentido e o propósito de se comunicar com tribos distantes, mas a moça que executava aqueles movimentos, ela se comunicava, com uma linguagem muito clara, com seres do espaço. Aquela fumaça subia aos céus e as preces, desejos, anseios eram atendidos. Não deu para vasculhar e nem adentrar muito.
A outra que catava folhas era uma índia, uma pajé da região da amazônia, brasileira, tinha e possuía conhecimentos das ervas. Interessante é como que a moça que jogava fumaça para o ar, para o céu, em verdade, buscava um consolo, uma resposta, um aconchego uma tentativa de retorno para casa. Ela tinha uma saudade que esses rituais ajudavam a aplacar, a diminuir, embora a saudade permaneça ainda nessa vida. No entanto, a conexão ficava clara e era esse o sentido de adentrar esse silêncio, compreender a nossa conexão com o universo.
Um dos sentidos do exercício era o de salientar que cada um de nós tem uma forma de conexão, de integração, de harmonização e aqui chamou, novamente, a minha atenção o uso do cachimbo da paz e a tão polêmica questão das drogas de forma geral e da maconha em especial.
Tal qual a semente não tem muita consciência de que é abrigada e acolhida pela terra. Porém o desabrochar da semente, a evolução do ser vai modificando a terra e a mãe. Como que se a mãe, assim como a terra fosse um tornar-se. Não se nasce mãe, não se nasce Terra. É nesse contato direto com o outro dentro de si mesmo, é abrigando e acolhendo em si uma semente do universo, do Grande Mistério que a mulher se torna mãe, a terra se faz Gaia, ambas se fazem DEUSAS e as sementes e frutos ganham consciência e individualidade para ao longo do processo re-criem tudo de novo, nesse ciclo de tornar-se. Fico aqui nas minhas ficções imaginárias acreditando que cada ser nasce em todos os reinos de forma conjunta e num único parto. Quando fostes parida humana seu cordão umbilical fostes cortado pelo ser angelical que és, acompanhado de uma sereia que nadava no liquido aminótico de vossa mãe, que é a Terra, és Gaia. E, por ser, um ser do reino mineral, outros do vegetal, outros do animal, sem contar de outros sem corpos físicos todos respiraram com você e acompanham sua caminhada, a espera de um abraço, de um olá que só pode ser dito, no silêncio da noite.
E nesse silêncio eu fiquei me perguntando de onde vem a fúria humana por conquista e colonização? De onde vem a nossa fúria por dominação e subjugação? Essa fúria não está na natureza. A natureza vive suas regras, suas leis, mas elas se fazem harmonicamente, mata-se para que outra especie continue vivendo e essa morte cumpre uma sacralidade na qual presa e predator honram Gaia e a vida. O humano não compreende essa sacralidade da natureza. Isso nunca foi a lei do mais forte e sim a regra da cooperação. Quando perdemos essa capacidade interpretativa, a natureza, as mulheres, as crianças, os velhos, os diferentes vão se tornando ameaças e ameaçadores, porque não sabemos lidar e conviver com as perdas, a morte, a angústia, o desamparo, o abandono. Sensações que toda criatura tende a sentir se não for acolhida pelo útero, pela proteção do pai, pela fala de que esse silêncio engole, mas nos devolve melhores e ao sermos engolido por eles nos fazemos humusanidade.
Essa fúria tem intoxicado o útero feminino com pressa, com dores, com medos, com desesperos, com despreparos e assim retirado dos seres o silêncio, aquela calma de se acalmar ouvindo outro coração, ao escutar uma cantiga de ninar.
Foi realizado junto as duas mulheres presentes um processo de ativação pelo qual elas irrigassem, adubassem, frutificassem todos a sua volta com a energia delas. Foi uma coisa linda, especialmente, porque esse processo de ativação se deu e se faz pelo abraço. Um abraço no qual a mulher se faz conectora, chave de interconexão com o todo. Uma viu nesse abraço, um vórtice de luz que ia ligando todos os presentes como havia percebido no momento que batia ‘tambor’. Eu digo que essas ‘fibras óticas’ vão ligando e interligando cada um dos seres, suavizando caminhos, quando eles são para ser suavizados, enraizando e ancorando pessoas. As mulheres são parte do livro sagrado da natureza, parte essencial para que desvelemos o sentido da criação. A conexão delas passa pelo útero e é uma pena que para muitas isso tem a função apenas reprodutiva.
Sem dúvida que essa função é tão gloriosa, maravilhosa, quanto gestar um filho de Gaia dentro de si mesma, porém por isso mesmo essa força é ainda maior e pode ser melhor explorada.










Linda vivência Beija Flor.
Grata por compartilhar.
Bjs de fé.
Grato Primavera!! É sempre um prazer compartilhar.
"Se for já é!!"
Bj
Lindo e profundo. Amei como sempre amo td que faz.
Grato anonima. Abraço!!